Constance Escobar é gente rara que vê o mundo através da lente da delicadeza, essa qualidade que parece andar se escondendo da gente. Das suas palavras, sentimos o acalento de ter uma cronista nos oferecendo textos que dão vontade de comer devagarinho. O seu livro é singelo, mas é gigante o encantamento que ele versa em cada página.
Impossível não pensar em outros cronistas e mestres da palavra, como Nina Horta, Luís Fernando Veríssimo ou Luiza Fecarotta, enquanto lemos Constance. Ela olha para o talinho da cereja do bolo; a forma como o “caramelo afaga o céu da boca” e se importa com coisas que passam despercebidas nesse vuco-vuco da vida que a maioria de nós está vivendo.
Ela é formada em Direito, mas, como é gulosa, ingressou na Gastronomia; como também é boa com as palavras, resolveu se jogar na escrita, tendo sido co-fundadora de uma revista que todos sonhamos ter disponível novamente, a FEIRA. A pauta da gastronomia é parte da sua vida pelo amor que tem pelo tema e pela fome que sente diante de aipins, pudins, bolinhos, pastéis e tudo o mais que possa acariciar suas papilas; foi assim que ela, durante um bom tempo, ocupou uma cadeira como membro do júri do The World’s 50 Best Restaurants. Mas é do mais simples e singelo que ela realmente parece gostar. Quando fala de comida, não é o café expresso tirado por um expert que faz seus olhos encherem de lágrimas, mas do café coado no copo americano, enquanto proseia gostoso, sentindo cheiro de bolo saindo do forno.
Seu livro Cachaça não é água, não – Crônicas do Comer é o volume dedicado a suas reflexões sobre o comer e a vida. Nas suas 112 páginas, sentimos que estamos pertinho da Constance, imersa em seus pensamentos sobre aquilo que pode ser algo extraordinário no ordinário da vida. Em um de seus textos, Constance diz: “Eis o que de melhor a comida pode fazer por nós: num átimo, nos leva de volta a um lugar, a um cheiro, a um sentimento, e, junto a tudo isso, ainda nos ensina algo sobre nós mesmos”.
Essas memórias afetivo-familiares preenchem as páginas desse volume pequenino, que fiz questão de saborear aos poucos, pensando na delícia que é ter crônica no dia a dia, assim como comida boa e chuva fina, como ela diz.
Seu livro é como um trecho dele mesmo:
“Podia ter sido apenas uma refeição prazerosa, mas foi mais do que isso. Foi um iluminado drible na precariedade da existência. Um desses momentos em que a música, a comida e as companhias são tão boas que a gente, apesar de saber que dura pouco, quase acredita que pode ser assim para sempre”.
Por mais cronistas e suas crônicas do comer, do beber e do viver.
Entrevista por Lua Russo e Fernanda Picoloto
Fica explícito em seu livro Cachaça não é água, não que comida nunca aparece isolada, mas ligada à vida e às memórias. Em que momento você percebeu que escrever sobre comida era, na verdade, escrever sobre existir?
Acho que a pandemia da COVID-19 foi um divisor de águas pra mim nesse sentido. Sempre vislumbrei na comida um significado para além de uma abordagem superficial, de puro entretenimento. Mas isso se depurou e se tornou mais profundo com a pandemia. Foi um momento de dor lancinante. Quando a gente se depara com a morte tão de perto (minha geração ainda não tinha passado por uma experiência como essa), algo se modifica dentro de nós. Ao menos comigo foi assim. Me pus a pensar: se eu sobreviver, com que quero gastar meu tempo nos próximos anos? Passei a valorizar mais o essencial em nossa existência, aquilo que permanece quando tudo que é excesso se dissipa. Certos exageros e certa superficialidade passaram a me incomodar muito. De lá pra cá, por exemplo, frequento cada vez menos restaurantes de alta gastronomia. Simplesmente não sinto vontade. Meu desejo mudou, passou a estar depositado naquilo que pode me oferecer a relação mais verdadeira possível com a comida. E isso costuma estar nas experiências mais simples, mais autênticas, mais relacionadas com quem somos, com o lugar de onde viemos, com aquilo que em nós evoca algum pertencimento. A memória e os elos se tornam uma bússola quando o caminho passa a ser esse. Naturalmente minha escrita também mudou a partir daí. Precisei entender por onde minhas palavras queriam caminhar. Acho que meu livro de crônicas é resultado dessa mudança de direção.
Em seus textos, a comida tem um caráter quase terapêutico, capaz de lidar com a saudade, a ansiedade e as sensações. Como é sua relação com o cozinhar?
A palavra é exatamente essa: terapêutico. Sou uma pessoa ansiosa. Penso muito, muito, o tempo todo. Tenho grande dificuldade de esvaziar a mente, mas às vezes a gente precisa, né? Cozinhar me ajuda nesses momentos porque é algo da ordem do concreto, que bota a gente pra usar as mãos, então é como se minha energia se transferisse da mente para as mãos durante uns pares de hora. E há a vantagem de ser uma atividade com começo, meio e fim, e que proporciona um resultado que pode ser imediatamente assimilado por nossos sentidos. Isso me reorganiza.
A recusa ao glamour e às tendências “gourmet” aparece em alguns de seus textos. Que caminhos você imagina para essa gastronomia mais conceitual que inundou mesas, revistas, perfis nas redes sociais e tudo o mais relacionado à comida e às cidades?
Acho que não vai morrer. Pode se reformular de tempos em tempos, mudar a linguagem, mas haverá sempre espaço pra abordagem mais conceitual. Em primeiro lugar, porque o exercício da experimentação, a busca por inovação tem sua importância em qualquer ofício. Em segundo lugar, porque esses espaços de inovação, até pelos preços praticados, acabam se tornando exclusivos. E, desde que o mundo é mundo, as elites demandam lugares que sejam pra poucos e bons; lugares onde só encontrem os seus e corram pouco risco de esbarrar com pessoas que não compartilhem seus códigos. Voilà.
Há uma atenção especial aos mercados, feiras e lugares “imperfeitos”, muitas vezes mais do que restaurantes estrelados. O que esses espaços revelam que os outros escondem, ou apagam?
Verdade; a verdade que habita os espaços que se erguem em torno de um senso de comunidade, de coletividade, de necessidades comuns aos seres humanos no correr dos dias: comprar suas frutas, suas ervas, seus pães, seus queijos, suas flores. A vida como ela é. Restaurantes estrelados são o oposto disso e têm lá sua importância. Em momentos de celebração, muitas vezes, é neles que encontramos o que buscamos. O problema está na sua banalização. Quando esse tipo de experiência passa a ser a regra, quando o que se busca a todo tempo, de forma incessante, é o extraordinário, perde-se o sentido do excepcional. Quando todo dia é especial, nenhum dia é especial.
Quando lemos a respeito do seu trabalho como escritora, especialmente no que toca ao gênero crônica, o nome Nina Horta sempre emerge. Como você vê o espaço que essa imensa escritora nos deixou no mundo das crônicas gastronômicas? Que nomes, além do seu, são gostosos de saborear em palavras?
Nina deixou uma lacuna que é difícil preencher. Confesso que me causou certa surpresa, na ocasião do lançamento do meu livro, ver certas pessoas se referindo a ele como uma obra que vem ocupar um espaço que estava vazio desde a morte de Nina. Jamais imaginei que minha escrita pudesse ser alçada a esse lugar. Fico feliz, claro, mas não sei se ouso concordar, rsrsrs. Sobre as palavras de outros nomes que me alimentam, eu poderia citar muita gente, mas vou escolher um, o Mateus Habib, autor da newsletter Prato Feito. Gosto muito da forma como ele escreve sobre comida. Sinto afinidade com o fato de ele varrer pra longe todo tipo de afetação e jogar luz no que há de essencial na experiência do comer. Já disse isso a ele e repito aqui: torço pra que ele nos presenteie com um livro que derive da newsletter.
A crônica parece ser um espaço para olhar as miudezas. Você acredita que escrever (e ler) sobre comida pode ser uma forma de resistência?
Acho que sim. Enquanto boa parte do jornalismo de gastronomia gira em torno do glamour, da exclusividade, da teatralização do ofício, a crônica nos dá a liberdade de olhar para o (aparentemente) banal e ver o que há de beleza nele. Manoel de Barros dizia que as insignificâncias se prestam pra poesia. Eu diria que tudo que não serve pro jornalismo de gastronomia mainstream é ouro pra crônica gastronômica.
Pingue-pongue do clube:
Qual é o seu livro preferido?
Seria como eleger a comida favorita, não sei se sou capaz. Acho que escolheria os livros do Rubem Braga, que sinto como um amigo que internalizei desde o momento em que li uma crônica sua pela primeira vez, quando eu tinha onze anos.
Como você mantém o hábito de leitura?
Nunca fui uma leitora disciplinada. E sinto que isso piorou muito nos últimos anos, acho que em grande medida por conta do uso dessa telinha que cabe em nossas mãos e passou a nos acompanhar até no banheiro. Redes sociais nos condicionaram a uma fragmentação que entendo como inimiga da leitura. Vemos e lemos pedaços de coisas ao longo do dia, consumimos muita informação, mas pouco desse consumo acontece em profundidade. Até assistir a um filme do começo ao fim sem parar no meio se tornou difícil. Ler vai se tornando um ato de resistência nesse mundo que nos esgota diariamente com uma existência fragmentada.
Qual livro deveria fazer parte desse clube?
Vou sugerir “A Mesa Voadora”, livro de crônicas do Luis Fernando Verissimo que tem a comida como tema. Pra puxar a brasa pra sardinha da crônica. E porque Verissimo é sempre um bom conselho.
O que te motiva a escrever?
Há uma necessidade que brota sem que eu saiba explicar muito bem. Às vezes nascem em mim textos inteiros que preciso correr pra tomar nota e não perder. Já aconteceu dentro da piscina, no meio de um treino de natação. Já aconteceu na cama, quase dormindo. Mas talvez, no fundo, eu escreva por um motivo mais trivial, nada glamouroso: pra não esquecer. Pra reter uma memória, um sentimento — não deixar que desapareçam, que se esgotem na duração do instante. É uma forma de prolongar a vida, fazer com que as coisas durem mais do que são feitas pra durar.
Está trabalhando em algum projeto de livro?
Como eu não consigo parar de escrever, acho que já tenho pelo menos metade de um novo livro de crônicas na gaveta. Vamos ver se aparece alguém que ache que vale a pena publicar.
Se fosse escolher uma comida, qual seria?
Escolher uma única comida é tarefa impossível. Mas se alguém botasse uma arma na minha cabeça e me obrigasse a isso, acho que escolheria os bolinhos de aipim da minha mãe. São uma espécie de memória primordial.
E um lugar em São Paulo?
Que difícil eleger um único lugar em São Paulo. Pensando nisso agora, me dou conta de que a capital paulista é tão efervescente que me leva a uma dinâmica diferente da que tenho em outras cidades. Tanto quanto gosto das novidades, gosto de voltar aos lugares favoritos. Mas São Paulo tem sempre tanta coisa nova que, pensando em retrospecto, vejo que estou sempre em busca de me atualizar quando visito a cidade. E cometo esse pecado de não voltar tanto aos endereços gastronômicos prediletos. Preciso corrigir isso. Curiosamente, nos espaços voltados à arte, não cometo esse desvio, essa infidelidade. Um lugar que me vem à memória, onde estive muitas vezes ao longo dos anos e ao qual voltaria eternamente, justamente não tem a ver com a comida, mas com a música, que, entre todas as linguagens artísticas, é certamente a que mais me toca. Me refiro à Sala São Paulo. Vou cometer um clichê, mas é inevitável: aquele lugar é um templo da música
E, por fim, um desejo relacionado à alimentação, aos sistemas alimentares e à cultura alimentar?
Acho que meu desejo maior seria chegarmos ao dia em que não haja mais pessoas revirando lixeiras em busca de comida. Poucas coisas me entristecem mais e me dão mais convicção de que fracassamos como sociedade.
Constance Escobar
Formada em Direito pela UERJ, seguiu o caminho do estômago e fez o curso de extensão Tecnologia em Gastronomia, na UNIRIO. Nesse espaço de falar e comer viu seu desejo de explorar a escrita gastronômica surgir. A partir daí colaborou com diversos veículos, foi cofundadora da revista FEIRA, publicação independente sobre gastronomia, contemplada com o Prêmio Werner Klatt em 2019. Foi membro do júri do The World’s 50 Best Restaurants, por um tempo, mas sentiu alívio quando deixou essa posição. Como redatora do livro Ecochefs – parceiros do agricultor, venceu o Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Economia Criativa. Seu livro foi Cachaça não é água, não - Crônicas do Comer Finalista do prêmio Gourmand Awards 2025.
Cachaça não é água, não - Crônicas do Comer






Sei que sou muito suspeita, mas o texto, a entrevista, a entrevistada, tudo aqui me deliciou. Parabéns pessoal! A Interseção Edições tem muito orgulho também de ter abraçado as crônicas da Constance desde a primeira forma. Acompanhar suas viagens e o modo como enxerga certos detalhes se tornou uma mania por aqui. Ela sempre encontra as gemas escondidas aos olhos do mundo. Não encontra porque procura com intenção. Encontra porque seus olhos e seu coração na boca conseguem enxergar. Encontra com a emoção. Esse é o super poder da Constance e tivemos a sorte de entender e reconhecer a escrita dela a partir dessa perspectiva. Muito, muito bom!